Fundador da 21212, a primeira aceleradora de startups do Brasil, o carioca Frederico Lacerda, hoje à frente da startup Pin People, compartilha aprendizados da vida de acelerador e acelerado

Na jornada empreendedora, Frederico Lacerda, 32 anos, já esteve nos dois lados do balcão. Em 2011, com o Brasil em um de seus melhores momentos econômicos, ele deixou uma carreira bem sucedida na Accenture para apostar em um ecossistema que, até então, não era dos mais populares por aqui: o das startups.

Com mais cinco sócios – sendo três fundadores da Movile –, ele abriu no Rio de Janeiro a 21212, a primeira aceleradora de startups do Brasil. “Foi na época que o Peixe Urbano despontou e colocou o país na mira de investidores estrangeiros. O mercado era fértil e gigante e vimos que existia uma oportunidade”, lembra. A inquietação não veio do nada: o time já acompanhava o que estava rolando lá fora em aceleradoras como as americanas Techstars e Y Combinator.

“A gente acreditava que só receber capital não era o suficiente para tirar algo do papel. Dinheiro, inclusive, muitas vezes atrapalha o empreendedor. Faltava no Brasil uma iniciativa que oferecesse mentorias e compartilhasse experiências”, diz.Dava uma certa agonia ver que aqui não tinha aquele ciclo do Vale do Silício de gente que já empreendeu, falhou, e está tentando de novo.”

A ideia do grupo era impulsionar cerca de 100 startups por ano e receber equity de 5 a 15%, a depender do estágio de cada uma. Considerando que o Brasil, especialmente o Rio de Janeiro, estava em alta, a iniciativa tinha tudo para dar certo. Só que….não foi exatamente como eles imaginaram.

De acelerador para investidor

“O desafio também era criar e fortalecer esse ecossistema por aqui. Era tudo muito imaturo”, lembra. Apesar de ter dado uma bela agitada no mercado – uma pesquisa rápida no Google mostra que eles saíram em veículos como Exame, Valor Econômico e Estadão e participaram de eventos espalhados pelo país –, a aceleradora, ainda hoje considerada referência, encerrou seu modelo inicial em 2015 com apenas 42 negócios impulsionados – cerca de 12 startups por ano. Das cerca de 2 mil que avaliaram, só 2% converteram.

Em meio a uma abundância de startups que vemos hoje por aí, a razão por terem fechado a operação até surpreende.

“Congelamos o modelo de aceleração por falta de volume de empresas. A nossa ideia era ser uma aceleradora pura, isto é, que sobrevive de exit [quando a participação na empresa é vendida], mas isso era e ainda é impossível no Brasil. A conta não fecha.

 

Aqui, não existe aceleradora pura. O valuation que rola em países como os Estados Unidos é infinitamente maior. Por isso que, de uns tempos para cá, a maioria começou a apostar também em programas de inovação corporativa, conta.

A situação ainda piorou com a crise que veio logo em seguida, que não só freou investimentos de fora, como fez com que muitas pessoas que queriam empreender se segurassem na cadeira.

“A gente vem de uma cultura que tem aversão ao risco. Culturalmente, o fracasso não é bem aceito por aqui. Em casa ninguém quer mostrar que falhou e, no Brasil, quem quebra, quebra na pessoa física também.”

A saída encontrada foi parar de acelerar novos negócios, focar exclusivamente no portfólio que eles já tinham e gerar receita conforme a valorização das ações dessas startups.

Um dos cases de sucesso foi a venda da ZeroPaper para uma empresa do Vale do Silício. Além da parte financeira – eles não abrem o valor –, a experiência validou a metodologia inicial do grupo.

De acelerador e investidor para acelerado

“Terminamos a ‘primeira fase’ da 21212 com sensação de dever cumprido. Conseguimos dar um empurrão em um ecossistema praticamente inexistente na época e criamos um portfólio de muita qualidade, que ainda conta com 14 startups em alto crescimento, muitas delas líderes em seus mercados, como a Maxmilhas, a Memed e a PEBmed”, conta Fred, que começou como responsável pela prospecção e seleção de startups e, depois pela operação. “Mas meu tesão sempre foi fazer parte do dia a dia do empreendedor, e quando mudamos o foco para a fase atual da 21212, que é de fundo, acabei me distanciando disso.”

Era o momento ideal, então, para fazer algo que ele já queria há um tempo: empreender. E nem foi preciso ir muito longe para isso. Em casa, sua mulher, a administradora Isabella Botelho, ex-coordenadora de busca e seleção da Endeavor, engatinhava com a Pin People, startup de people analytics que criou para levar inteligência ao processo de seleção. “Eu já tinha uma perna dentro do projeto, foi a deixa para colocar a outra também.”

Foi aí que Fred viu que, do outro lado do balcão, a experiência como acelerador, apesar de ajudar, estava longe de ser meio caminho andado.

“Por sermos uma plataforma de gestão de experiência do colaborador, e não simplesmente de preenchimento de vagas, já ouvimos vários ‘nãos’ de grandes empresas. A área de RH ainda é cobrada por velocidade de contratação, então temos também o desafio de educar o mercado. Eu cheguei com a expectativa de que, por ter atuado na 21212, lidar com capital e mesmo com cliente seria mais fácil. Mas é aquilo: opinar no negócio dos outros é fácil. Estar na pele do empreendedor é outra história”, diz.

Em três anos de jornada, a Pin People, hoje uma das startups do iDEXO, já recebeu R$ 600 mil em aporte – está captando uma nova rodada de seed –, conta com grandes clientes como Santander e Oi e impactou mais de 80 mil pessoas. Este mês, o time bateu a marca de um milhão de respostas aos questionários enviados para os usuários.

A seguir, Fred compartilha o que aprendeu e vem aprendendo desde então:

Olhe para todos os lados

“Na época da 21212, eu não tinha a empatia pelos empreendedores que eu tenho hoje. Quando você está mergulhado numa coisa, você fica viciado naquela proposta e não enxerga o que está na frente, não consegue ver quão alto o negócio vai e nem que as oportunidades podem ser bem maiores.”

Mude o approach

“Ao tentar fazer negócio com uma grande empresa, entenda que ela tem um problema que precisa ser resolvido Não comece a relação simplesmente empurrando um produto que você tem. É legal se mostrar disposto a cocriar. Empreendedor está sempre pivotando, melhorando. Vale aproveitar esta oportunidade.”

Burocracia faz parte

“Na 21212, eu tive a chance de ver as coisas dando certo e errado. Tive contato com inúmeros casos de brigas de sócios e burocracias que com certeza me ajudaram a cortar caminho na jornada da Pin People. Duas coisas que todo mundo deveria aplicar logo de cara: o modelo de vesting (modelo de distribuição de participação para os sócios), e ter um sócio da área de tecnologia. Facilita muito as coisas.”

Não perca o foco

“Ao contrário de quando fundamos a 21212, hoje o que não faltam são startups, programas de aceleração e outras iniciativas de fomento ao empreendedorismo. Todo dia surge um novo. Por isso, é importante que o empreendedor analise as opções e veja o que faz mais sentido para o momento da empresa: se é exposição e visibilidade, aceleração em troca de equity ou mesmo investimento. No caso da Pin People, por exemplo, uma aceleradora de startup não faria diferença hoje. Precisamos muito mais de uma aceleradora de negócios, caso do iDEXO.”

Seja chato(a)

“Independente do programa de aceleração que você escolher, não pense que os próximos passos estão garantidos. Tem muita gente que acha que ao ser aprovado, o sucesso vai aparecer. A real é que ninguém vai fazer algo sair da inércia por você. Tudo o que você tira, é equivalente ao que coloca. O empreendedor da ZeroPaper, por exemplo, que foi a startup que fez o exit na 21212, era o mais ‘chato’ e o que mais nos sugava.”

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