Fica a reflexão para quem está planejando a agenda de 2019

Curtir dois dias de shows de bandas internacionais ou assistir palestras e fazer networking? A dúvida pode parecer estranha, mas tem pipocado na cabeça de muita gente ultimamente. Se há alguns anos os eventos dedicados ao ecossistema eram quase inexistentes e considerados programas de índio, hoje já são tão disputados – e caros – quanto festivais badalados de música.

Peguemos o Web Summit, que rolou em Lisboa no ano passado, como exemplo: cerca de 70 mil pessoas de diversos países desembolsaram valores a partir de 800 euros pelo ingresso e voaram até a capital portuguesa para assistir algumas das 1000 palestras da programação.

O negócio é tão quente que movimentou na região 300 milhões de euros só nesta última edição – convertendo para o real, daria cerca de R$ 1,2 bilhões, o que é, apenas a título de curiosidade, R$ 200 mil a menos do que o Rock in Rio trouxe ao Rio de Janeiro em 2017.

A razão desses eventos estarem tão populares não é surpresa para ninguém. O assunto startup, afinal, está na boca do povo. Da mesma maneira que há muita gente empreendendo por aí, há muitos executivos apavorados com as mudanças e dispostos a ao menos respirar o mesmo ar desse pessoal. Transformação digital que fala, né?

O lado positivo da grande oferta de eventos focados em startups e inovação é que nunca foi tão possível ouvir gente interessante compartilhar suas experiências. No último RD Summit, por exemplo, considerado o maior evento de marketing e vendas da América Latina, teve palestras de executivos de empresas como Nubank, Paypal e até astronauta americana da NASA. O investimento, claro, também foi alto. Para assistir aos três dias de evento – que terminavam sempre com DJ, cerveja liberada e gritos de “eu não vou embora” dos participantes – , era necessário desembolsar pelo menos mil reais, quase o mesmo preço do passe para todos os shows da próxima edição brasileira do festival Lollapalooza, marcado para abril na capital paulista.

Em épocas de eventos grandes como esses, fotos de crachás e anotações inspiracionais são as novas tiaras de flores do Coachella que bombam no Instagram. Com a diferença, claro, de que são postadas no LinkedIn também.

Como tudo que se torna popular, a demanda por ouvir e contar histórias acabou fermentando uma vertente não tão positiva do ecossistema: o empreendedorismo de palco. E é aí que mora a primeira cilada de muitos eventos: infelizmente, qualquer pessoa que fala o óbvio e mostra um PPT bonito já tem grandes chances de conquistar admiradores. Por isso, antes de investir uma grana no ingresso de algum evento de empreendedorismo, fique de olho em alguns pontos. Dependendo dos seus objetivos – principalmente se for só para postar nas redes sociais e mostrar que esteve lá –, é melhor usar esse dinheiro para curtir uma boa música ao vivo e não incentivar o crescimento do lado B, vamos dizer assim, das conferências.

Reunimos algumas dicas para você avaliar se vale a pena comprar o ingresso daquele “super evento disruptivo e inovador” ou não:

Analise com calma o currículo dos palestrantes

É comum abrir o “line up” desses eventos de empreendedorismo e encontrar CEOs de startups, heads de inovação, diretores de tecnologia e etc. Até aí, parece legítimo e maravilhoso, mas nunca é demais dar uma pesquisada para ver se esses profissionais são realmente relevantes ou se não passam de influenciadores de LinkedIn – rede social que, vale dizer, é tipo planilha do Excel: tudo o que a pessoa colocar, vai ficar bonito.

Tente descobrir se o palestrante vai falar sobre os desafios de sua função ou simplesmente contar a história da empresa em que trabalha

Isso tem acontecido principalmente com startups hypadas. Muitos CEOs e fundadores estão terceirizando as palestras para seus colaboradores – isto é, preparando essas pessoas para representá-los em eventos Brasil afora. O que isso significa? Que você pode se empolgar ao ver que o diretor de engenharia daquele unicórnio vai palestrar e, na hora do vamos ver, o cara simplesmente contar a história de como os chefes dele fundaram o negócio e nada sobre sua função lá dentro. Ah, e lembre-se: se o tema da palestra realmente puder ser terceirizado, é bem provável que o conteúdo já esteja disponível na internet em vídeos e textos de eventos passados.

Não seja um caça-likes

A não ser que você trabalhe no evento ou esteja cobrindo as palestras para algum veículo, não considere como prioridade fotografar ou filmar o que está sendo dito. Escute, preste atenção, faça anotações. Afinal, provavelmente você pagou caro para estar ali. Postar nas redes sociais é legal, mas essa não deve ser a primeira coisa que você pensa ao sentar na cadeira. Deixe para se preocupar com os likes depois (ah, e a maioria dos eventos posta fotos oficiais que você pode pegar depois – com os devidos créditos, é claro).

Foto: David Fitzgerald/Web Summit

É brinde que você quer, @?

Essa vale tanto para participante, como para patrocinador: não trate os brindes como as coisas mais importantes do evento. O tempo que você perde na fila para ganhar aquela garrafinha plástica de péssima qualidade ou para se cadastrar no sorteio do Playstation com certeza poderia ser gasto de um jeito mais útil (networking, talvez?). E para você, empresa que está expondo no evento: será que qualquer lead vale a pena? Mesmo o daquela pessoa que só te deu o e-mail dela para ganhar uma bolsinha? A Fast Company, aliás, fez uma matéria interessante sobre o impacto dos brindes inúteis para o meio-ambiente.

Falando em networking…

Muita gente paga o ingresso não tanto pelo conteúdo, mas para encontrar pessoas e trocar cartões. Por isso, às vezes, por mais que a programação não esteja tão boa, se o seu objetivo for bater um papo ou simplesmente ver e ser visto, pode ser uma boa dar um pulo lá.

Estude a programação e faça um roteiro

Os principais eventos são intensos e com várias palestras acontecendo ao mesmo tempo. Não deixe para escolher o que vai assistir ali, na hora. Além de grandes chances de se atrapalhar – o SXSW, em Austin, por exemplo, tem atrações espalhadas não só em um local, mas pela cidade (!) inteira –, você também corre o risco de acabar optando por uma palestra meio furada. Ah, e importante: controle o emocional para não sofrer tanto com o FOMO (fear of missing out), aquele sentimento ruim de estar perdendo alguma coisa. Cada escolha, uma renúncia, não tem jeito.

Vá também a eventos fora da sua área de atuação

Se todo profissional de tecnologia, por exemplo, participar exatamente dos mesmos eventos, provavelmente vão sair com as mesmas anotações e referências. Se o seu objetivo ao gastar uma grana nessas conferências for dar um gás nas inspirações para pensar em produtos e serviços melhores para a sua empresa, vale a pena dar uma ousada e ir além do circuito.

Empolgou? O site Chicken or Pasta fez um compilado de eventos interessantes que vão rolar pelo mundo em 2019. Dê uma olhada lá e, claro, já prepare o bolso 😉

 

(foto do abre: Harry Murphy/Web Summit via Sportsfile)

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